Um pouco de autocobrança pode ser útil — ajuda a manter compromisso com o que a gente valoriza. O problema é que, para muitas pessoas, ela deixa de ser uma bússola e vira um juiz interno permanente, que raramente reconhece o que já foi feito.
É comum a pessoa terminar um dia produtivo e ainda assim sentir que não fez o suficiente. Concluir um projeto e já estar pensando no que poderia ter sido melhor. Receber um elogio e, internamente, minimizá-lo. Esses são sinais de que a autocobrança passou de aliada a obstáculo.
Como a autocobrança deixa de ajudar
Na Terapia Cognitivo-Comportamental, olhamos para isso como um padrão de pensamento que se tornou automático — a mente passa a comparar constantemente o que foi feito com um padrão quase impossível de alcançar, e o resultado dessa comparação quase sempre é “não foi suficiente”. Não é uma questão de força de vontade ou de “pensar positivo”: é um padrão que se repete há tanto tempo que passou a soar como a verdade, e não como uma interpretação entre várias possíveis.
Um jeito simples de perceber a diferença: cobrança que ajuda aponta para uma ação concreta (“preciso revisar esse texto antes de enviar”). Cobrança que não ajuda aponta para um julgamento sobre quem a pessoa é (“eu devia ser melhor nisso”, “não sou capaz o suficiente”). A primeira orienta. A segunda só pesa.
De onde isso costuma vir
Muitas vezes esse padrão tem uma história — cresceu em ambientes (familiares, escolares, profissionais) onde o reconhecimento vinha condicionado a um desempenho muito alto, ou onde erros eram tratados com mais peso do que acertos. Com o tempo, a pessoa aprende a se cobrar antes que alguém o faça, como uma forma — inconsciente — de se proteger da crítica externa.
O que costuma ajudar
- Observar, por escrito, quando a autocrítica aparece e o que ela realmente está dizendo — muitas vezes fica mais fácil perceber o exagero quando a frase sai da cabeça e vai para o papel.
- Perguntar: “eu diria isso para alguém que eu gosto, na mesma situação?” — geralmente a resposta é não, o que já revela o quanto o padrão é desproporcional.
- Praticar reconhecer o que foi feito, mesmo que de forma imperfeita, antes de passar direto para o que falta.
Isso não significa parar de ter padrões ou deixar de se esforçar. Significa construir uma régua mais justa — uma que reconheça o processo, não só o resultado ideal que talvez nunca chegue.
Se a autocrítica tem pesado mais do que ajudado, vale a pena entender de onde ela vem e como ela pode ir perdendo força, aos poucos, em terapia.